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02/01/2013





Verão- animal - Coiote
XAMANISMO

Coiote
Jaguar Dourado -



Por intermédio de lutar com sua própria natureza coiote, o herói se vê forçado a empreender uma viagem para um plano superior e lá, ao desafiar as advertências, criar em si mesmo uma nova ordem. Depois de ter conquistado esses poderes, ainda sofre uma transformação na terra. Deve criar uma nova relação com sua esposa que, mais tarde, torna-se uma grande curandeira. Como em praticamente todos os mitos, depois que o herói ensina seu recém-adquirido conhecimento cerimonial para a família, não pode mas permanecer na terra. Deve regressar para os Seres Divinos dos quais tornou-se tão íntimo. Ele passou a ser uma espécie de salvador que sacrifica sua vida terrena para o bem de seu povo.

Coiote é a personificação do princípio do traquinas. O ciclo dos traquinas é dos mais antigos e persistentes ciclos míticos dos nativos americanos. Os atributos mais antigos dos traquinas são sua cobiça excessiva, intensa luxúria e nomadismo. Não tem meta específica na vida exceto causar problemas, e, no entanto, foi ele que roubou o fogo do Deus Negro e o trouxe para o Primeiro Homem e Primeira Mulher. Foi capaz de controlar o sol e os processos vitais da criação, e rege a inauguração da sexualidade genital e do processo do parto. Roubou o filho do Mostro da Água e trouxe com isso a inundação, mas também está vinculada com a fertilidade e com um certo tipo de sabedoria prática. Contra os heróis nos mitos dos cantos, Coiote tem uma atitude abertamente hostil, mas secretamente essa posição é que mobiliza a seguir em sua própria busca espiritual. O herói encontra significado, mais Coiote tem vitalidade para atribuir substância a esse significado.

Coiote é uma das mais enigmáticas figuras da mitologia norte-americana, como traquinas, tem sua contraparte em toda cultura. Entre os Winnebagos é Wakdjunkaga, o Matreiro. Na costa noroeste, é corvo, que também está associado a criação, tem um apetite insaciável e consegue o que quer com astúcia convicente. Para os Oglalas Sioux, é Aranha, cujo pai foi rocha. No extremo oriente, é representado por sua prima, a Raposa, que causa desorganização mental, seduz os rapazes e as moças, e enfeitiça as pessoas para que percam a memória e caiam sob seu poder.

Tem sido comparado a Loki, da mitologia germânica, a Maui da mitologia polinésia, e a Hermes entre os gregos, mas é mais rústico, erótico e francamente ambíguo que qualquer um destes. É difícil ser apreendido pelo intelecto racional, mas encanta a imaginação. Assim que sua imagem maliciosa e lasciva é captada pela percepção mais sutil, ele invade a mente. É fácil reconhecermos nele nosso próprio rosto, perscrutando na escuridão, ressentindo-se da luz, odiando o herói por seus feitos gloriosos, e ainda assim sentindo atração por ele porque ele é radioso. Coiote é o animal que, em sua dolorosa passagem pela terra multiuterina, terminou se tornando parcialmente divino.

Jung em seus comentários sobre os Mitos do Traquinas, disse: “Se, no fim e ao cabo do mito do traquinas, existe uma sugestão do salvador, essa premonição ou esperança consoladora significa que alguma calamidade aconteceu e foi conscientemente compreendida... Na história coletiva, assim com na individual, tudo depende do desenvolvimento da consciência. Isso traz uma gradual libertação do período de confinamento ao inconsciente e, portanto, é um portador da luz e da cura”. Coiote é um parceiro nessa liberação: ele força o herói a tomar consciência, um não poderia existir sem o outro. Ambos são grandes antagonistas simbólicos da mitologia mundial, opondo-se e neutralizando-se reciprocamente. Não obstante, em sua reconciliação é que reside a esperança da humanidade para ter vitalidade e completar-se.

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Direito de sonhar
Eduardo Galeano -


Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede.

Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.

Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.

O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV.

A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.

Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.

Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.

Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.

O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.

Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.

Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua.

Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.

A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: "Festejarás o corpo". E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro.

A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte".

Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.



REFLEXÃO PARA 2013!

PARA QUE SERVEM OS FURACÕES

Pára de te poupar em brisas calmas.
Os furacões também tem o que dizer.
A brandura é bela, porém, necessita do vigor para equilibrar-se.
Algumas portas necessitam solavancos para destrancar
E são portas onde, geralmente, não há janelas.
Provavelmente seja a vida provocando os furacões internos.


Muitas pedras, tão resistentes
Se constituíram graças à lava dos vulcões.
Algumas tempestades derrubaram coisas antigas,
para que no lugar destas, surgissem novas.
Diversos amores se renovaram após crises e discussões ardentes.


Não apostes todas as tuas fichas nas planícies tranquilas:
a vida, em completude, inclui vales profundos,
montanhas íngremes e muitos espinhos.
Não é castigo: é apenas a diversidade embelezando a paisagem.


Não percas de conhecer as estradas pedregosas.
Elas podem machucar teus pés,
mas também fortalecem tuas pernas, na caminhada.
Não queiras desfrutar o mel desconsiderando as abelhas.
A ação delas, mais do que a doçura do mel, tem a te ensinar.


Não fujas do ardor da vida escondendo-te em um casulo,
pois nas chamas que queimam, conhecerás ainda o calor que te aquece;
na água gelada que arrepia tua pele, também terás o que te mata a sede;
no ar que bagunça teus cabelos e te traz poeira aos olhos,
também descobrirás alívio e frescor;
e nesta terra que parece te afundar os pés e lamacear tuas mãos
é onde encontrarás suporte, alimento e abrigo.


Não te atenhas somente ao que é belo, fácil, claro e sereno.
É conhecendo bem a guerra que se dá valor à paz
E é atravessando a escuridão e a dificuldade que se engrandece a alma
Para que ela saiba desfrutar da calmaria. (Juliana Davi)

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FALSOS MESTRES


Não confio em ti
Porque tua voz, embora entoada docemente,
soa como grito aos meus ouvidos.
Me grita a tua audácia em pensar que me conheces
mais do que eu mesma, apesar de teres me visto tão pouco
e me escutado menos ainda.

Não confio em ti
Porque ao teu lado não há troca, há imposição.
Tu impões teus conceitos, tuas crenças
E me analisas como se eu fosse um objeto estanque,
sem direito a fala, a divergências, a opinião própria.

Pensas que me enxergas com os olhos da alma,
mas o que chega até mim não é teu amor,
e sim tua pretensão em auxiliar cada ser que de ti se aproxima
como se tu mesmo não necessitasse de ajuda.

Não confio em ti
Porque tua aparente calma não é calma: é controle.
Cada palavra parece ensaiada para me tocar fundo
E exatamente por isso é que não me toca.
Sabes intuir e te orgulhas do que és capaz de 'receber' ou 'curar'
Mas nada sabes a respeito do que sinto.
Eu não te abri esta porta.

Não consegues ouvir, apenas falar, sem pausa
E te colocas em posição de meu mestre sem que eu tenha te elegido como tal.
Tu traças um julgamento pobre a meu respeito sem me ouvir
E, depois, me falas em amor e luz.
Mas não há prece, cristais e imagens sagradas
que substituam o respeito verdadeiro.

Podes encher tua casa e tua boca com orações prontas ou intuídas
Mas nenhuma palavra vinda de ti me convencerá
Enquanto eu não enxergar em tua vida
o exemplo concretizado daquilo que pregas.

Mesmo se o mundo te amasse
ainda assim, eu te consideraria uma farsa.
Antes de pretenderes ser meu mestre,
faça um bem para a humanidade: cuida de ser mestre de ti mesmo.
Pára de investigar a vida alheia para não olhar a tua.
As pessoas sábias conseguem silenciar
e compreender que somente a vida é capaz de ensinar com maestria.
(Juliana Davi)

31/12/2012





ANO NOVO: PROMESSAS DE UM FURACÃO

No final deste ano
Assim como ao longo do ano que segue
E também dos próximos
Eu prometo não aceitar mais
Nenhum tipo de grosseria.

Prometo não me deixar ser desrespeitada
como já fui em alguns momentos em que eu não tive escolha.
Prometo cuidar ainda melhor de mim
E me afastar de tudo o que me faça sentir
menor do que eu realmente sou.

Prometo levar a sério apenas
as pessoas que me compreendem
E me manter distante de qualquer lugar
do qual eu não me sinta parte
E de quaisquer pessoas que não me escutem
porque já tem uma opinião cristalizada a meu respeito.

Prometo desistir de tentar ser amorosa com pessoas
que invadem meu espaço sem nem ao menos perceber.
Prometo fazer de qualquer relação algo digno
E respeitoso, sobretudo comigo mesma.

Prometo manter-me atenta ao meu bem-estar
E fazer o possível para preservá-lo,
mesmo que para isso eu tenha que desistir
de certas coisas e pessoas no meio do caminho.
Nenhum amor pode ser real sem respeito.

Prometo não aceitar ser tratada
como um ser incapaz de decidir sozinha
Porque a vida me provou que isto não é verdade
E não aceitar julgamentos de pessoas
que pensam me conhecer
Mas que nada sabem sobre meus sonhos, meus traumas,
meus medos e minhas vitórias.

Prometo escutar somente a voz que me falar com amor,
porque felizmente cresci
E nada me obriga a apanhar de novo,
nem física e nem emocionalmente.
Passei a vida inteira rezando para chegar onde estou.

Prometo ficar apenas onde eu seja bem recebida
Onde as pessoas sejam verdadeiras o suficiente
para não ter medo de meu choro e de meu riso,
porque elas aceitam os seus próprios choros e risos.

Prometo não aceitar comentários maldosos a meu respeito
Em que minhas reações emocionais são tomadas como
'forma de chamar a atenção'
Como se, com tudo o que recebo,
eu precisasse disso para me salientar.

Prometo continuar vivendo com intensidade
Escrevendo e expressando a verdade do que sinto
Porque sei que atrás desta tela há muitas pessoas que gostariam de fazer o mesmo
Mas que, por alguma razão, temem se expor.
Não tenho medo: já nasci exposta.
Minhas vísceras eram penduradas no varal, para secar ao vento.
A vizinhança toda sabia.

Prometo não recuar quanto ao meu trabalho
Mesmo que algumas pessoas próximas achem que fiz uma escolha imbecil.
Não são elas que lêem cartas de mães emocionadas
que entenderam seus filhos através do que escrevi
Não são elas que recebem um abraço apertado
de alguém que se identificou, não com as palavras,
mas com a essência do que eu escrevo.

Prometo desistir da companhia
de quem considera crises emocionais como 'pitis'
porque não sabe lidar com elas
E porque não tem o menor conhecimento sobre o assunto.
Por fim, prometo, principalmente,
não me deixar tratar como uma pessoa doente.

Embora meu humor oscile
Minha alma é sã, porque trabalho com amor
E me deito, a cada noite, em paz, desejando
que todos os seres do mundo sejam felizes.
Esse estado de união com o todo é algo
que muitas pessoas tidas como normais desconhecem.
Algumas estão mais ocupadas em manter as aparências
e em rotular os demais.

Prometo, ainda, não discutir a respeito
Pois cada ser tem o direito de traçar sua própria trilha.
Mas não de decidir a minha.
Nesta virada de ano, não apenas o novo entra, mas o antigo sai.
Que os ciclos de entradas e saídas se dêem
da forma mais amorosa possível
Mesmo diante de todas as distorções
que insistimos em chamar de 'amor'.

(Juliana Davi)

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