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25/10/2014







Então ela rastejou pelo chão.
E enquanto rastejava, deixava pedaços da pele pelo caminho. Sentia-se perdendo coisas, deixando para trás pedaços da história, do coração, da alma. E quanto mais perdia, quanto mais deixava pedaços seus, mais sentia que encontrava-se inteira.
Fazia-se em partes, e sentia-se plena.
Morreu em cada parte que ficou. Não olhou pelos ombros, nem mesmo para ver suas pegadas. Elas também estavam deixando de estar visíveis, elas também estavam morrendo.
Não havia passado, ele havia passado, ido, partido!
Viu um clarão.
Era uma luz.
Renascer...
Havia uma tela em branco, que precisava de colorido.
Havia um dia.
Havia o agora.
Saiu do chão.
Não caminhou..percebeu que haviam asas em suas costas.
Havia o vento!
Havia o voar!
Havia a liberdade da tela em branco!
Havia a luz.
Havia o precipício.
Houve o salto!
E o vazio da tela a ser preenchida!


Paz, é uma questão de sair das expectativas, acolher o novo que chega, deixando que a vida flua sem formato definido. Como a água que se molda a cada recipiente sem nunca deixar de ser água!
Descobrindo na prática....
Paz na alma!

Imagem: Dorina Costa




A sensação asfixiante do aqui e agora.

Quando nos damos conta de que o passado se dissolveu atrás de nós, feito fumaça, feito escuridão quando a luz chega, é sim angustiante e pode ser devastadora, se não mantivermos o foco.
Quando atravessamos a ponte para algum lugar e percebemos que nos encontramos sozinhos, de repente, do outro lado, a vontade é voltar atrás e se aninhar no “cômodo, confortável e conveniente”, mas que pelo menos, é conhecido. De repente percebemos que não temos mais raízes, que somos árvores soltas procurando um novo terreno para nos fixar. Percebemos que não temos mais folhas, flores e, que nossa última lição é o total e absoluto desapego, para que uma nova ponte, um novo caminho e acima de tudo, um novo ser possa nascer.
O silêncio externo se confunde com as vozes interiores que ressoam dentro da alma, umas parabenizando a coragem, outras nos dizendo que estamos perdidas. Há uma confusão emocional tão grande, que não sabemos se corremos ou se permitimos que o “bicho” nos pegue, porque parece ser menos dolorido.
O peito aperta, os olhos se enchem d água, a vontade de sair correndo e nunca mais parar toma conta do coração, que nesse momento está encolhido feito criança, pedindo colo e aconchego, pedindo proteção e cuidado.
Ao mesmo instante que sentimos vontade de soltar fogos de artifícios e comemorar nossa coragem, temos vontade de bater a cabeça na parede, quem sabe os neurônios pegam no tranco e nos dão a luz que precisamos para saber o que fazer, quando e como.
De repente nos vemos sem ter lugar para voltar, sem ter um lugar definido para ir e simplesmente ter de parar e ficar onde estamos: AQUI E AGORA.
Mas o que fazer com esse aqui e agora?
O que fazer com toda essa angustiante sensação de solidão que toma conta de nós?
Onde estão todas as certezas que nos trouxeram até aqui?
Onde estão todas as pessoas que são importantes em nossa jornada?
Cada ser está passando por seu próprio momento sabemos disso, mas temos vontade de gritar ao mundo inteiro: Hei, onde estão todos? Será que ninguém percebe que estou precisando de colo, de carinho e de aconchego? Onde está o amor?
Será que percebemos quanto da carência está gritando? Quanto da menina assustada ainda está presente se fazendo de vítima e pedindo algo que nós mesmos precisamos nos dar? Quanto de nós quer realmente morrer e quanto ainda está amedrontada querendo colocar nas mãos dos outros a responsabilidade por nossa caminhada, por nossa felicidade, por nossos passos?
Quando nos damos conta que não há outro caminho a seguir, senão em frente e que não há passado, mas escolhas feitas que traçam o caminho a cada passo, nos damos conta de que podemos não saber qual caminho seguir, para onde vamos e o que vai acontecer, mas estamos onde deveríamos estar, no AQUI E AGORA e só a partir daqui, é que se inicia uma nova jornada e, mesmo que o medo venha, que a angustia tome conta, só escreveremos um novo capítulo da nossa história, quando dermos um passo a frente, pois se dermos um passo atrás, será sempre mais do mesmo!
Assim, com angústia e medo, o caminho precisa ser traçado e esse só é desenhado, entre o alvo e a seta!

16/10/2014





Era uma vez uma menina, que tinha medo da vida, tinha medo de amar, porque tinha medo do que as pessoas podiam se transformar.
Era uma vez uma menina, que chorava pelos cantos, que gritava de dor, que urrava de raiva.
Era uma vez uma menina, que não aceitando suas sombras, se escondia sob o manto da tristeza.
Era uma vez, uma menina, que deixou de acreditar em sua força, que rastejava pelos cantos escuros de sua casa interna, pedindo um pouco de água para matar a sede de sua alma.
Era uma vez, uma menina que tinha lembranças da criança ferida, dos gritos e desamores pelos quais passou.
Era uma vez, uma menina, que após caminhar por muito tempo, em árido deserto, encontrou uma fonte, onde havia água cristalina, mas que precisava ser trocada.
A fonte falou:
Entregue-me o prazer de suas águas e eu te entrego a água da vida!
E assim, essa menina entregou-se, vibrou, chorou de alegria e sanou sua sede mais profunda.
Era uma vez, uma menina que estava pela primeira vez, sentindo profundamente o significado das palavras: consciência, perdão e acima de tudo Gratidão!
Gratidão por suas dores, por suas lágrimas, por suas tristezas, consciência de que tudo isso a fizera crescer e assim perdoou a si mesma, acolheu todos os momentos e dançou suas sombras olhando no mais profundo de seus olhos.
Era uma vez uma menina ferida, que desabrochou mulher felina e dançou toda sua força, nas águas da vida, que dela brotavam!
Era uma vez, uma mulher que jurou que dançaria, até que seu felino estivesse a seu lado, nem a frente, nem atrás e assim, sentiu-se plena, pois dentro dela tudo estava em paz. Sim ela sabia que havia sombras, mas essas eram seu melhor lado e nunca mais o renegaria!
Era uma vez, uma mulher/felina ou felina/mulher que estava curada!

14/10/2014







Enquanto nos preocupamos com o tempo de duração das coisas, esquecemo-nos de vivê-las.
Tempo, não se conta em horas, dias, semana ou anos. Tempo se conta no bater do coração, no sorriso que escancara nos lábios, nos pontos que brilham nos olhos.
Enquanto nos preocupamos com calendários e relógios, deixamos passar as estrelas, a lua, o sol..
Enquanto marcamos tempo, o tempo passa e não temos nada além dele, porque não nos ocupamos com o que realmente importa, a qualidade que está impressa nesse tempo.
O que tem feito você sorrir?
O que tem feito você sorrir?
O que tem feito você sorrir?
De que adianta o tempo, sem tempo para ser feliz!
De que adianta o tempo, sem tempo solto, livre.
De que adianta o tempo contado, se nossas asas estão cortadas e não temos tempo de voar!
De que adianta o tempo, se não conseguimos nos desfazer, em poeira, qual estrela que se dissolve no espaço e passeia livre, sabendo-se parte do tempo, sem tempo contado!
Tome o tempo da sua vida, em goles suaves, matando a sede da sua alma, sem que precise marcar passo, ter compasso, contar o tempo!
Viva o tempo, sem tempo, apenas entregue-se e flua............................

Ilustração: Rob Rey (DeviantArt)