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20/11/2018

Se sentir cansado, esgotado é absolutamente natural e faz-se necessário ouvir a voz da alma quando ela te pede para parar, respirar para tomar fôlego para depois continuar a jornada.
O cansaço é termômetro para percebermos que nossas reservas energéticas estão chegando na linha vermelha. Aquela que nos avisa que o fim do reservatório está próximo e que o limite foi extrapolado. Nossa saúde emocional e física está em risco.
Precisamos ouvir esses avisos, que muitas vezes nos chegam por intuição para que não tenhamos de parar quando nosso trem está lotado e o freio é acionado por emergência. Toda carga que estava bem acomodada em todos os vagões, em equilíbrio, sai voando e cai sobre os ombros, fazendo estragos. Precisamos ouvir e aprender no amor.
Precisamos parar e nos colocarmos no colo. Nosso colo.
Porque nesse momento de cansaço pode esperar que a indignação vai bater forte também, porque as expectativas quanto a amizades, cuidado, família, atenção, etc., vão correr água abaixo. Uma das lições deste momento.
As pessoas não estão a sua disposição. Não mesmo. Elas estão vivendo seus próprios cansaços e indignações.
Elas também estão em busca de colo e choram suas dores. Sozinhas.
O universo umbigo com ligações em úteros cofres (que guardam dinheiro ao invés de valores), as fazem perder o contato humano...
Hoje procuram-se pessoas para desabafar suas dores, mas não procuram-se pessoas para ouvir suas mágoas e secar suas lágrimas.
As pessoas não querem ouvir. Apenas falar.
Ouvir e ter empatia nos torna co-responsáveis pela alma alheia. Ninguém quer isso mais.
Estamos tendo de caminhar sobre nossas pernas num deserto de almas vazias. Não há colaboração e cooperação. Há interesses.
Eu te escuto, mas há um preço incluso. O valor da amizade perdeu-se em meio o vil metal e as desculpas de falta de tempo.
Tempo...tempo... tempo....
Senhor maior de todas as coisas. À ele, o tempo, precisamos entregar nossas perguntas, lágrimas, dores e amores, para que ele, no seu tempo, nos entregue de volta os aprendizados e sabedorias...o Tempo!!!
Nossos elos estão enfraquecendo. E falamos da vida alheia com diploma e doutorado. Somos os juízes e doutores. Mas ao encararmos nossa própria história, temos o olhar e o comportamento de pré escola.
Para sairmos desse ciclo vicioso que se tornou a vida, precisamos tirar algumas pessoas do caminho como quem tira pedras, obstáculos. Porque sim, temos o direito. Não por maldade, mas para nos ligarmos a outras estrelas, histórias, vidas, corações e principalmente, nos ligarmos a quem tem por fundamento, valores, não preços.
E compreendendo a máxima: "quem crítica todos pra você, vai criticar você, para todos"!
Ter cansaço e indignação é natural, mas não é estacionamento de alma, é o ponto de partida para que o novo se apresente, trazendo novo fôlego e horizontes, permitindo que o sonho se refaça e o tecer de uma nova jornada se apresente. Aí é só pegar linha e agulha para bordar o novo quadro da vida, onde almas plenas de amor, compaixão e acolhimento estão caminhando de mãos dadas!

Rose Kareemi Ponce

Link do livro: Tekoha Porã
Com meus escritos


Quando escondemos a dor, falamos apenas em cansaço e tudo o que queremos é voltar para algum lugar que nem sabemos onde é realmente...e se existe.

Rose Kareemi Ponce


Só quem caminha do seu lado e tem a consciência de te ouvir sem julgamentos, saberá profundamente de suas dores e dificuldades. Além de seus sonhos e amores..
Isso é para poucos.
Isso é para muito poucos. São para os amigos verdadeiros.
Os que assim o fazem iluminam seu caminhar na noite escura e renascimento de tua alma!
Bom dia!

Rose Kareemi Ponce


Xamanismo não é uma religião, não da forma como as pessoas estão acostumadas. É a escolha de uma postura diante de um caminho e sim, isso nos conecta ao Divino, pois quanto mais nos libertamos das amarras dos dogmas, mais livres para sentirmos estamos, e sentir, nos faz enxergar tudo como sagrado e nos faz por escolha, não por medo de castigos, querer ser sempre uma boa pessoa.
Ser uma boa pessoa é: desejar, fazer e falar ao outro, tudo o que gostaríamos que desejassem, fizessem e falassem a nós mesmos, porém, nos mantemos na mesma estrada ainda que assim não fosse. Porque o caminho do xamanismo sempre nos faz olhar para dentro, ou seja, Eu tenho a responsabilidade de ser a melhor pessoa que eu puder. Ponto.
Xamanismo é um caminho.
A religiosidade nasce na caminhada. Na escolha de ser o rezo.
Na escolha de compartilhar o rezo!


Rose Kareemi Ponce

Imagem: 1 Encontro de Benzedeiras e Curandeiros de Minas Gerais - 2018

A mulher selvagem

Toda mulher que não se domesticou e mantém-se em harmonia com sua essência é uma mulher livre.
Livre das etiquetas que a sociedade lhe impõe.
Livre para correr pelas pradarias e florestas pisando descalça pelos terrenos que a ensina a conhecer sua jornada.
Percebe espinhos, perfumes e cores.
A mulher selvagem voa junto aos grandes gaviões aprendendo a observar a vida atentamente, rastreando como a onça os inimigos e os alimentos para que sua alma cumpra seus contratos. Vive a magia da sutileza ao felinamente se espreguiçar a beira rio, se encantando com sua própria figura delineada pelo sol e sombra, sabendo que são partes de si mesma.
A mulher selvagem tem nos olhos os ensinamentos da coruja, que aprende ao observar a noite escura sem medo e é senhora absoluta de si.
A mulher selvagem tem a força dos grandes mamíferos, que pisam firme sobre a terra.
Ela é também a dançarina da noite e uiva, qual loba espreitando a lua.
A mulher selvagem vibra com as ervas que encontra e se cobre de proteção e rezos.
A mulher selvagem não guerreia pois tem a certeza de que tudo acontece na colaboração de todos os seres.
A mulher selvagem rola feito felina que é no orvalho que repousa nas folhas, e faz disso sua medicina.
A mulher selvagem solta os cabelos e neles guarda as memórias dos dias já vividos mantendo assim sua força.
A mulher selvagem quando necessário, trança os mesmos cabelos prendendo a tristeza e no alto da colina os solta, pedindo ao vento que leve embora ao mais longínquo tempo, deixando apenas as lições aprendidas.
A mulher selvagem não é de todo brava nem de todo calma. É a exata medida do que pede sua alma desperta. Se precisar rugir, vai rugir. Uivar, vai fazê-lo, e saberá docemente cantar como os sabiás laranjeira nas primaveras floridas. A mulher selvagem se multiplica em muitos assim a jamais perder-se de quem é.
A mulher selvagem pinta a face e dança na fogueira...entrega ao sagrado fogo o que precisa transmutar, e não se sente vazia com isso. A plenitude a chama a cada respiração.
A mulher selvagem é a exata medida do desvario. Sem medo ou culpa por sua inconstância...feita de fases, sabe-se um ser não linear, e se honra por isso.
A mulher selvagem olha de frente, e quem sustenta seu olhar encontra constelações de amor dançando em sua íris. Ou se entrega, ou foge com medo de sua intensidade.
A mulher selvagem dança com lobos e caça com as onças, nada com os botos, voa com os gaviões e condores, hiberna com os ursos, brinca com os beija flores, serpenteia sua veste e se esconde por entre as folhagens...a mulher selvagem é tudo o que ela se permite ser.
A mulher selvagem aprende e compartilha o que sabe, fortalecendo as companheiras de jornada.
A mulher selvagem encontra seu lugar de poder e ali faz morada, mas não constrói muros, eleva pontes. Se faz elo.
A mulher selvagem apenas É, sem nada precisar provar.
A mulher selvagem tem um pouco de Isis, de Madalena, de Maria, de Iara, de Jurema....e nessa mistura encontra muito dela mesma!!

Rose Kareemi Ponce